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Jairo Francisco de Souza
Santos Dumont - MG Sobre este usuário: Um aficcionado por música e editor da revista eletrônica PoppyCorn.com.br
Resenhas deste usuário:
Sabe aquelas músicas com refrão grudento, que seguem o padrão estrofe-refrão-estrofe-refrão-solo-refrão, que se encaixam certeiras em qualquer rádio e que todo mundo vai gostar quando ouvir? Pois nenhuma delas faz parte do primeiro disco dos baianos do tara_code (assim mesmo, em minúsculo e com underline). Em "Azul e Roxo", o tara_code se aproxima do trip hop, mas fazendo dele algo mais ácido e barulhento. Portishead e Tricky ficam só na referência. Os reponsáveis por isso são (basicamente) a bateria não-eletrônica tocada com raiva, a guitarra de Monte que, nas poucas vezes que surge, parece ter sido tocada pelo filho adolescente do Lee Ranaldo (uma vez que o Sonic Youth anda fazendo cada vez menos barulho) e as incursões dos metais em algumas faixas. Aliás, os metais fazem o charme (e a tensão) da primeira metade do disco, disparado a melhor parte, com músicas como "Rum Cake" e a faixa-título "Azul e Roxo". Essa última poderia fazer parte de um filme futuro do Tarantino, se ele começasse a se interessar por músicas com guitarras sobressalentes. Outra ótima faixa é "O Avesso da Tristeza", onde a letra é "cantada" de traz pra frente como fez o Stone Roses, porém aqui a voz fica em primeiro plano dando a impressão de que é cantada em outra língua. A segunda metade do disco fica com as músicas mais experimentais, porém sem transmitir grandes emoções. A exceção fica na excelente "Amanhã nem sei", música tão insandecida que deixa a sensação de estarmos dentro de um carro fazendo parte de uma perigosa perseguição.
ritmo O ex-Replicantes mostra porque já se tornou celebridade no cenário independente. Músicas assoviáveis, baladas feitas à base do violão, espanhol fajuto e um carisma enorme. É um daqueles discos que quando acaba de tocar já dá vontade de ouvir novamente.
Música pop perfeita Essa banda mineira conseguiu atingir nesse seu disco de estréia aquela química de fazer "a música pop perfeita" com o básico baixo+guitarra+bateria que vários conjuntos passam sua existência perseguindo em vão, ou seja, conseguiu encontrar o Santo Graal. Esse Graal é composto das composições delicadas do Radiohead, das repetições que pedem para serem cantadas do Mogwai, das guitarras furiosas e melodiosas do Placebo e de muito mais. É um rio de referências, uma mistura tão grande que o produto final deixa de se caracterizar cópia e indubitavelmente deve ser considerado novo.
sem farsa O acréscimo do nome "Realismo Fantástico" fez uma diferença tamanha para o Wado. O disco, que foi lançado já no final do ano, abandona as vertentes dos discos passados, que apostava na criação de uma "nova MPB", e agora mostra um Wado rockeiro, mas sem deixar de lado sua brasilidade. Desde seu primeiro disco Wado termina o ano em listas de melhores e com esse "A Farsa do Samba Nublado" não é diferente. Méritos de quem sabe se renovar a cada disco.
tudo de novo... mas agora é NOVO "A gente é a prova de que o manguebeat não morreu", disse o vocalista Felipe. O manguebeat pode não ter morrido, mas com certeza não é mais o mesmo. O Mombojó pegou a proposta de Chico Science e ZeroQuatro e elevou ao extremo. Misturou Nick Cave com Pixinguinha, Stereolab com Chico Buarque, Radiohead com João Gilberto e muito mais. O interessante é perceber que todas as misturas das músicas podem ser ouvidas com muita naturalidade. "nadadenovo" não tem como proposta experimentar casamentos musicais. As músicas vão se criando e necessitam de novas roupagens meio que por vontade própria. É a velha estética do manguebeat: fazer música com o que capta a parabólica presa à lama. A diferença é que o Mombojó muda de estação a cada meio minuto...
Lou Reed brasileira... Hotel Continental, terceiro disco solo de Stela Campos, mescla rock, MPB e eletrônica num trabalho onde as letras ganham força ao retratarem o cotidiano das grandes cidades e suas personagens melancólicas. Ela, que já foi chamada por Chico Science como a "Billie Holiday de garagem", confronta sem pudor um violão folk com samples, teclados com scratches, conduzindo guitarras e violoncelos junto à sonoridades complexas que representam a metrópole. Assim é Hotel Continental: um passeio psicodélico por uma cidade de vários aspectos, pessoas e mundos a serem conhecidos.
Calado, à primeira impressão, parece um disco de covers de clássicos da velha guarda, tamanho a intimidade que temos com as faixas antes mesmo delas chegarem ao seu meio. A razão para tal possui três nomes: Nuno Ramos, Clima (Eduardo Climachauska) e o próprio Romulo Fróes, três compositores excepcionais que se mostram à altura da nova leva de compositores, como Chico Amaral e Marcelo Camelo. Ao lado de nadadenovo, do Mombojó, Calado foi o melhor lançamento nacional do ano passado. Tomara que, como outros grandes lançamentos desconhecidos desse país, não caia também no poço do esquecimento.
Jóia rara Uma pérola perdida no tempo, perdida há exatamente 10 anos. O Funziona não chegou nem a ser promessa, não teve tempo para isso. A banda sequer durou todo o ano de 1992, ano no qual gravou esse disco, só lançado em 2002 pela Outros Discos. Três dos membros da banda vieram da banda paulistana Fellini e se juntaram com a compositora Stela Campos. O quarteto conseguiu criar um disco totalmente descompromissado, lotado de canções assoviáveis. O mais interessante é ver que o disco, mesmo não sendo conhecido, conseguiu adiantar muito do que viria na música brasileira. Por exemplo, ouça Romulo Fróes e depois ouça a faixa "Zero de Compromisso". Para completar, o disco possui a original de "Criança de Domingo", cover que o Chico Science fez no disco "Afrociberdelia" depois de ouvir uma cópia cassete da master desse disco. Com certeza, uma pérola!
Deixa tocar E por falar em música brasileira moderna, nada melhor do que comentar o disco "A música Toca" do DJ Loop B. Brasileiro até a alma, seu disco (de eletrônica, é claro) cria uma mistura ora dançante ora cabeça de ritmos regionais. Para ajudar no disco, o DJ conta com participações de gente grande como Chico César e bahiana Rebeca Matta. Entre os efeitos de estúdio, estão também instrumentos rústicos como um tanque de Chevette, máquina de lavar da Brastemp, grade, painel de carro, geladeira, monitor de computador, porta de carro tocado com furadeira, e tudo o mais que sair algum som ou ruído, isso, no final, vira música.
Melhorres do ano Com participações de membros do Mestre Ambrósio e Karnak, Stela Campos fez um disco de música brasileira moderna, algo bem diferente da já estilizada mistura de samba com rock. "Fim de semana" tem como mote a melancolia e o caos das grandes metrópolis. Um ótimo álbum de quem já teve um disco figurando entre os melhores do ano.
Já! O Bojo é um grupo experimental que se difere muito do padrão dos outros instrumentais brasileiros. Mesmo não sendo um conjunto de rock ou de eletrônico, o Bojo acaba usando os dois como meio para construção das suas músicas. O grupo se juntou com a diva esquecida Maria Alcina para criar um disco mais que especial. Entre composições próprias e versões inusitadas de Wado, Secos & Molhados, João Bosco e até Ary Barroso, esse excelente disco é um show do começo ao fim. O destaque fica para a ousadia do grupo que muda as bases originais sem questão de deixá-las sempre paupáveis, coisa de quem não tem medo de errar ou de não fazer música de fácil absorção.
Biscoito fino Numismata é o nome dado a toda pessoa que coleciona moedas, medalhas, tesouros e afins. E Numismata é o melhor nome para atribuir a esta banda paulistana que busca nas raízes da música brasileira os antigos sambas modernos de Cartola e Monsueto e lhes dá um tratamento vanguardista e futurista, criando um som igualmente moderno e nostálgico, capaz de mesclar com extremo equilíbrio samba, rock, psicodelia, música eletrônica e efeitos espaciais, criando assim um disco indispensável em qualquer prateleira não só dos amantes da música brasileira como também de todos ouvintes interessados em conhecer bandas cheias de novidades e inovações musicais.
porreta O segundo disco do alagoano Wado, mais um de uma nova safra de compositores de grande talento, é uma tentativa de criar imagens sonoras. São 13 belas canções, com destaque para a excelente "Tarja Preta", feita para ouvir e sair dançando.
O sonho... Quando eu era adolescente meu maior sonho era ter uma banda de rock. É bem provável que esse tenha sido o sonho da maioria dos adolescentes da minha geração. Eu queria comprar uma guitarra, mudar o mundo com minhas palavras, colocar o amplificador no último volume, perturbar bastante os vizinhos (não que eu os odiassem, pelo contrário, eram pessoas ótimas, mas acho que os vizinhos foram feitos para serem perturbados, não é?). Eu sabia que não tinha voz para cantar e talvez por isso mesmo a banda tinha que ser de rock, porque elas não necessitam de grandes dons, basta fazer uma música legal, uma letra qualquer e cantar aquilo com a maior sinceridade que a gente conseguir. É o bastante para se criar um hit. Eu cresci, encaretei e nunca coloquei o som da guitarra alto o bastante para incomodar meus pais no quarto ao lado. Minhas letras nunca viraram música e minhas músicas nunca foram ouvidas por ninguém. Não costumo me sentir frustrado por isso, mas hoje um pequeno disco de 12cm chegou nas minhas mãos e me deixou com uma grande sensação de inveja. O disco possui o estranho nome de "Oxymoro", e o dono é o experiente Carlos Lopes e sua banda, o Mustang. Carlos conseguiu fazer o que nós sonhávamos na puberdade: uma banda de rock`n`roll básico, músicas compostas com o desleixo de quem não está muito preocupado com o resultado final, letras simples e diretas. Tudo em volta de uma atmosfera de descontração e improviso. Oxymoro é o resultado de quem acreditou em seus sonhos de adolescentes, transpôs os obstáculos e colocou o amplificador da guitarra no máximo. Um disco que nos deixa com a vontade de vibrar novamente as cordas daquela velha guitarra empoeirada que ficou esquecida na casa dos pais.
Caipira rokêro Ainda me lembro da vez que me entregaram um disco de capa feinha de uma (na época) nova banda brasileira. Depois de algumas audições, já estava apostando no sucesso musical da banda e hoje o Pato Fu (na época, lançando seu Rotomusic de Liquidificapum) é uma dos melhores conjuntos brasileiros, na minha humilde opinião. Bom, o que me fez lembrar disso? Um outro disco que acabo de ouvir que, se não me deu a mesma impressão que o debut da banda mineira, pelo menos chegou muito mais perto do que qualquer outro debut nacional que andei ouvindo nesses últimos anos. O "dito cujo" se chama Carne de Pescoço e a banda, Motormama. Na verdade, o Motormama é novo, mas seus integrantes já têm experiência no cenário underground. O grupo surgiu do antigo Motorcycle Mama, já participou de algumas coletâneas e tiveram seu cd demo "Mestiço" relançado pela Midsummer Madness. Porém, Carne de Pescoço pode ser considerado o primeiro álbum da banda. Como o galo em destaque na capa do disco já sugere, o conjunto aposta no caipira mas, acredite, não dispensa as distorções e psicodelias do bom rock`n`nroll. A influência de Mutantes é óbvia mas não pára por aí. Ora o disco soa punk, ora anos 60. Passa pelo caipira e pelo luxo da bateria eletrônica, além do rockabilly e do folk. Tudo isso mantendo o equilíbrio e a identidade da banda.
Renatinho e turma em New Orleans O espírito de New Orleans ganhou sotaque carioca. Renatinho faz um disco excepcional com sonoridades atípicas até mesmo para o cenário independente e mostra grandes sacadas com letras simples e divertidas como "Diabo Apaixonado" e "Meu Cappucino". O Canastra faz músicas que remetem a seriados antigos, ao tempo em que a vovó era ainda mocinha e ansiava pelo seu primeiro beijo. Já deve estar vermelho de vergonha quem um dia disse que o rock brasileiro não tem mais nada de interessante para mostrar.
Assegurado o lugar na estante! Alguns discos valem o lugar na estante mais pela sua história do que pela música que eles contêm. O primeiro disco solo de Che, ex-Professor Antena, é um bom exemplo disso. O disco possui uma idéia tão cool que nem importa se o conteúdo musical é bom ou não, só a idéia já vale o dinheiro gasto nele. A nossa sorte é que Che (nome real: Alexandre Caparroz) conseguiu ser cool e ao mesmo tempo fazer boa música. Para alimentar a inevitável nostalgia que o disco nos dá, quem sabe ouví-lo diante da TV com o video-cassete reproduzindo a história do garoto que saciou a explosão de hormônios da puberdade transando com duas lindas loiras: sua mãe e a jovem empregada, respectivamente, Vera Fischer e Xuxa? A ditadura até que teve suas diversões...
Pop não banal O Brinde consegue ficar no limite entre uma banda tipicamente comercial e as chamadas bandas indies. Possuem letras fáceis de cantar, mas que estão muito acima das "bandas da Malhação", suas melodias são simples e bem construídas, coisa que não deixa o ouvinte não-iniciado estranhar e que ao mesmo tempo deixa satisfeito o sujeito que quer ouvir boa música. Resumindo, o Brinde conseguiu no seu álbum de estréia, fazer o que o Skank demorou 6 discos pra tomar coragem: fazer música pop, sem fazê-la soar banal.
Surf Music Caveira, pra zoar a massa funkeira, saca? Surf Music Caveira, pra zoar a massa funkeira, saca? Não? Então pelo visto você ainda não topou com quatro estranhos que vivem de óculos escuros e zoam todo mundo que passa à sua volta. Não se sabe ao certo de que confins eles vieram, uns dizem que são alienígenas, outros que eles vieram da Ilha da Magia, mas o que se sabe é que volta e meia eles aparecem para tirar sarro de alguém e, dizem as más línguas, quem os vê pessoalmente têm uma experiência tão marcante que não os consegue esquecer com facilidade. Os alienígenas acima se auto denominam Os Ambervisions e acabam de criar mais um monstro barulhento-destruidor-subversivo, zoando a massa funkeira, metaleira, beatlemaníaca, etc. O monstro vem em forma de CD, chamado "Bons Momentos Não Morrem Jamais", um petardo punk/surf music de primeira linha! Depois de lançar o bom "Cada Dia Mais a Mesma Coisa", em 2001 pela Migué Records, o Ambervisions tem a cara de pau de lançar esse "Bons Momentos..." que é "muito mais bom" que o primeiro. Tudo sobre o aval da Monstro Discos, numa putaria danada! É mesmo o fim do mundo, lamentaria o meu pai... Esse novo atentado contra a humanidade guarda clássicos imediatos como "Desempregado", "Visão de Raio X" (participação do punk brega Wander Wildner), "Tele-Entrega Pra Fudê" (com Roger e Serginho Serra, ambos do Ultrage a Rigor) e "Feijoada Metaleira", que possui vários astros do metal como ingredientes principais. Talvez o ponto máximo da sacanagem fique por conta da singela "Pau no cú do iê-iê", a coisa mais filhodaputa que eu já ouvi! Sensacional, diga-se de passagem... Num cenário que parece que todo mundo está querendo se fazer de sério, o Ambervisions chega para tirar sarro com tudo e todos, carregando o espírito "vamu zuá" sem ter medo de fazer feio. Se você não é daqueles que só compra discos de grupos com carinha bonitinha, pode correr atrás desse ótimo "Bons Momento Não Morrem Jamais", feito por quatro cretinos feios como o diabo, mas que fazem um som maravilhosamente louco.
Mistureba de responsa Você pega o cd de uma banda chamada Zémaria e o que acha que eles tocam? Mangue beat? Forró? Reggae? Errou. Zémaria é música eletrônica. Tenho que confessar, não sou fã de música eletrônica. Acho o estilo maçante. Mas Zémaria é uma questão a parte. Suas músicas não sofrem do "mesmismo" nem da repetição constante de barulhinhos. Aqui o que temos é música. Música eletrônica cantada e tocada. E eu agradeço. No seu disco homônimo, a banda nos apresenta ritmos que passam pelo drum n` bass de "Alegria", "DB" e da ótima "Tá tudo esquematizado" (também com vídeo clip disponível no site da site da Lona!), o MPB-eletrônico (subestilo que acabou ganhando destaque atualmente com o trabalho da Fernanda Porto) de "Jardim Camburi" e "Prece Muda", além de outros destaques como a relaxante "Um som na sala" ou "Há de estar". Um bom disco que agrada até a quem não gosta de música eletrônica. A banda: Alex (voz, sintetizador, sampler), Marcel (voz, guitarra, sintetizador, seqüênciador), Michel (baixo, efeitos), Humberto Ribeiro (voz, sintetizador, percussão), Negoléo (bateria e pandeiro) e Sanny Lys (voz).